segunda-feira, 31 de março de 2008

O Pianista

Wil Scaliante

Um cômodo. Uma janela aberta. Brisa que mexe suavemente a cortina. Os últimos raios de sol entram pela fresta da cortina e iluminam um piano de calda. Um velho piano. Frente a frente com um velho homem.

Um homem magro, alto, cabelos brancos, pele enrugada, orelhas grandes. O ar de felicidade que o envolve torna aquele momento o mais especial de toda sua ilusória vida.

Tudo parece estar imóvel. Apenas os dedos do velho homem movem-se de forma que ecoe uma belíssima música. Os que ali estão, escutam atentos nota a nota, aparentemente à música serve apenas como trilha sonora para tudo que ali ocorre.

Os raios de sol começam a sumir. O cômodo aos poucos escuresse. O frio que congela as mãos dos ouvintes parece não atingir o pianista. A música que começa suave ganha tom alto, aumentando o suspense.

Repentinamente a música para, os aplausos soam. Mais o final não corresponde ao esperado. O pianista vira-se para os alunos, sorri, nota-se uma lágrima saindo de seus singelos olhos e escorrendo em seu rosto enrugado, ele coloca a mão em seu peito, pela ultima vez olha para seus alunos, pisca um de seus olhos e cai, duro, morto. Agora suas mãos estão geladas, agora seu rosto ganha um tom de seriedade e o ar de felicidade que o envolvia aos poucos vai indo junto de sua alma.

Os alunos assistem perplexos, seus olhos estão nada mais que esbugalhados, alguns parecem estar aterrorizados, até ensaiam um começo de choro, outros sentem um ar de felicidade os envolver e deixam a calma entrar em seus corpos, poucos parecem nada ter entendido. Até que um aluno, com um sorriso na boca e uma lágrima no rosto, levanta e diz:

- Ele tinha prometido compor sua marcha fúnebre! Não havia melhor momento para ser tocada.

Vampiro vivo, amor morto

Wil Scaliante









As vezes quero ser um vampiro
Pra poder sugar todo seu amor pra mim.
As vezes quero tomar do teu sangue
E sentir correr em minhas veias a paixão que quis.

Sei que quer a dor da minha mordida,
Tocanto teu pescosso e te causando arrepio.
Sei que quer sair comigo na noite
Perambulando pelas ruas em busca de desafios

Sabes que não consegue ficar longe de mim
Que o tesão domina seu corpo e te faz correr até aqui.
Sabes que te sugo aos poucos
Que suas lagrimas de amor, me faz sorrir.

Quem diria que o nosso amor se encontraria na escuridão
Sobre o olhar da Lua Cheia que enaltesse a nossa paixão
Quem diria que os uivos seriam nossa trilha sonora
E que os lobisomens aspirariam uma paixão fervorosa

Porque a eternidade não pode nos presentiar?
Com a vida sem a morte, e apenas um pouco de dor para valorizar.
Porque você preferiu a separação?
Não sou homem de amar fantasma. Você quem escolhe.
Ou morro eu ou tu voltas a viver paixão.

terça-feira, 25 de março de 2008

Zagueiro mata a jogada e é preso em flagrante

Réu confesso, ele admitiu tê-la pego pelas costas; alegou legítima defesa, mas obteve as penalidades máximas

"Dois ex-são-paulinos e três pênaltis acabaram com um tabu de quase 11 anos. O Palmeiras, que não vencia o São Paulo em Campeonatos Paulistas desde março de 1997, ganhou. E goleou. Com gols e boas atuações dos atacantes Denílson e Kléber, ambos formados no Morumbi, o Verdão fez 4 a 1 – de virada e com três penalidades – e acabou com um longo jejum. O Palmeiras subiu para a vice-liderança e deixou o rival fora da zona de classificação, em sétimo lugar."
Globoesporte.com - 16 de março de 2008


Willian Rafael Scaliante

Juro que não tive culpa. Tudo aconteceu muito rápido e não pude evitar. Ela entrou na minha área invadindo a defesa do meu time. Fomos pegos de surpresa, foi um momento de desatenção. Tudo bem, admito tê-la pego pelas costas, mas ela também estava armada. Eu vi, a jogada foi armada. Ela ameaçava claramente o nosso gol. Se eu não a desarmasse, o tiro ia para no fundo das redes. Além do mais, é meu trabalho como zagueiro desarmar, matar se for preciso, as jogadas e ajudar a defender o gol.

Está certo, sei que não devia ter segurado o atacante. Mas vocês viram, ele é um matador profissional. No lance anterior ele deu um corte fatal, deixou o zagueiro no chão. E como se isso não bastasse, deu um tiro certeiro que penetrou nosso gol. Foi doloroso pra gente, aquele disparo rompeu a nossa defesa. Quando o vi ameaçando novamente o gol, não hesitei em detê-lo. Eu confesso, matei a jogada. Mas o que queria realmente era apenas desarmá-la.

Mostraram-me o temido cartão vermelho e agora estou aqui, excluído, preso ao vestiário. Sozinho. Na verdade o remorso me faz companhia. O juiz errou, não merecia uma sentença tão rígida. Não houve dolo. Minha consciência está tranqüila, o superintendente do meu clube sabe que sou inocente. Ele afirmou que somos vítimas de um complô. Não dizem que a Justiça é cega? Então, como o juiz pode enxergar tantas penalidades máximas em uma única partida?

Sei que agora é tarde para lamentações, uma vez que fui condenado. Mas enquanto eu viver continuarei insistindo: matei aquela jogada, sim, mas apenas para me defender.