quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ele não sabia brincar


Fernanda "Phulgaz"



Ele não sabia brincar, mas mais do que isso, ele não sabia com quem estava brincando.

Estávamos no Cuba, o bar, eu, ele e os amigos dele. Naquela noite além de se portar como um perfeito idiota ainda o fez de forma tão graciosa e apaixonante que me deixou sem reação. Até aquele momento.

Ele tinha PAVOR de compromisso. Ele tinha pavor de compromisso porque já tinha um firmado para com ele mesmo. Ele só precisava da segurança que ele mesmo podia se proporcionar, o que eu achava ser uma das coisas que demonstrava sua maturidade reprimida, sendo auto-suficiente emocionalmente e tão seguro de si.

Ele não precisava me apresentar como namorada para saber que me tinha. Ou talvez ele só não quisesse mesmo me ter. Ele não precisava me pedir em namoro pra eu ser a namorada dele. Em resumo, ele era covarde e egoísta. E eu paga-pau, achando uma tudo gracinha. Muito cômodo.

Mas eu também não me importava, eu nunca fui apegada a símbolos. Acredito na importância do que eles significam, mas não propriamente na importância deles. “Palavras são só palavras.” Um dia esses símbolos já tiveram muito mais significado, eu acredito, mas hoje só sobrevive o dogma, ou nem isso. Antigamente, chamar alguém de esposa, significava que era ela a digníssima mulher a quem se dedicava amor, respeito, e sexo com exclusividade. E todos sabemos que hoje a regra é a antiga exceção. Hoje esposa quer dizer... esposa. Que pode ser, ex-amante, conta conjunta, sugadora de hormônios, menta... Hoje em dia pode significar muitas coisas.

O mesmo vale para “namorada”. Chamar alguém de namorado não é garantia nenhuma. Não mesmo. E sendo eu uma garota que gosta de se sentir segura, eu não queria mesmo chamar alguém de namorado, eu queria mais que isso. Eu queria o que ele me dava, que eu não sei bem dizer o que era, algo que ficava entre as risadas dele que eu causava e os beijos que eu não esperava. Era algo que ficava nesse espaço de tempo que me garantia o que eu queria. Ele.

Não ser apegada a símbolos não quer dizer que eu sou alguém super-descolada-desencanada-massa-mesmo. Não. Eu tinha meu orgulho. E ouvi-lo dizer exatamente o que eu dizia para as minhas amigas quando ele estava longe e elas me perguntavam sobre a nossa atual situação, sendo dito por ele, ali na frente dos amigos dele, Oh baby, such a big mistake! Não se brinca com o orgulho de uma garota.

Não sei se era a TPM, podia ser, mas eu estava com um humor perigosamente ácido.
Eu não tinha intimidade com os amigos dele, ele não era perdido por mim tanto quanto eu por ele, e eu não sabia o que esperar, mas eu precisava vê-lo tropeçar com as palavras, ou só engasgar com elas, perder o ar e sufocar até ficar verde, azul, roxo e morrer. È, eu estava de TPM.

Esperei ele segurar o copo de cerveja, levar até sua boca e dar um gole seguido de outro:

_ Eu me casaria com você.Ele engasgou.

Ponto!Eu ignorei e continuei. Os amigos dele já conheciam pouco de mim e do meu humor sem censuras, suas expressões não mostravam mais do que expressões de quem ouve uma piada irônica. Era uma piada, mas dessa vez eu queria rir sozinha. E queria rir muito...

_ Você é o tipo de garoto que nunca deixa de ser um desafio, mas mais do que isso, você consegue me provocar de tal forma que me faz querer ao menos tentar vencê-lo, dia após dia...

Os amigos dele se entreolharam, suas expressões mudaram. Tenho quase certeza que ele pensou algo do tipo : “Ãhn?!Ela não está...”

_...eu poderia esperar por isso, mas eu esperaria demais levando em consideração seu egoísmo e covardia, eu também poderia não querer aceitar levando em consideração que eu poderia me casar com quem eu quisesse...

Oops! Deixei escapar um pouquinho do veneno, mas tudo bem, acabou parecendo romântico e despojado ao mesmo tempo. As expressões de todos da mesa, e alguns da mesa ao lado, estavam congeladas.

_... mas não seria um desafio, e eu não tenho interesse em outro que não seja você. Você quer se casar comigo?

Era para ser tudo muito mais romântico e parecer algo pensado e programado. Mas ele tinha sido um idiota, eu estava de TPM e é óbvio que coisas tão ruins só poderiam ter saído de improviso, mas quando o milagre é muito grande ninguém ousa questionar.

Ele não tinha saída. Ele não tinha o que dizer. Estávamos em um bar, em uma mesa com todos seus amigos homens, apenas homens e eu tinha acabado de pedir a mão dele em casamento.Ele não tinha o que dizer, ele estava num bar em uma situação que se chama de sinuca, só que em outro tipo de mesa.

Ele olhou para o seu copo, eu imaginei que ele estivesse pensando em uma jogada que não fosse nada genial, e que depois de jogar seus amigos fossem rir muito, pediríamos outra rodada, eu vingada fosse aproveitar a noite ouvindo as histórias e vendo fotos das peripécias sexuais do Português, o amigo pervertido e contador de histórias, e depois disso ia para casa escrever um e-mail contando minha piada e minha noite para minhas amigas..

Quando ele ergueu o olhar com aquele sorrisinho maroto, só deu tempo de pensar:

“Oh-oh..”

_ Sim._ ...?

Ele levantou, puxou minha mão, me trouxe para bem perto dele e disse baixinho:

_ Me caso.

Filho-da-puta.

E antes que eu pudesse, isso se eu tivesse algo, dizer qualquer coisa ele me beijou. E eu, bem, eu era perdida por ele. Beijei em troca. Filho-de-uma-puta!
E hoje eu sou a esposa dele, esposa do jeito de antigamente. E ele é meu marido, marido do jeito antigamente, eu espero

.Ontem de manhã eu disse para ele não esquecer de pegar o bolo de aniversário da mãe dele, na hora do almoço eu lembrei de novo. Antes de dormir eu escrevi um bilhete e deixei na porta da geladeira para ele ver de manhã na hora em que acordasse. O bolo que era para estar aqui na hora do almoço, chegou com atraso de 2 horas e todo amassado, porque esses entregadores não tem o mesmo cuidado que nós temos. Hoje a noite nós vamos em um barzinho encontrar alguns amigos dele.

Talvez eu faça uma piada sobre divórcio.