quinta-feira, 6 de novembro de 2008

UNE e Conlute batalham pelo poder estudantil

Wil Scaliante/Matéria Prima
A Conlute faz oposição à UNE, acusando-a de não ter autonomia por ser controlada por partidos aliados do governo

O movimento estudantil teve atuação importantíssima na história do Brasil. Hoje, duas entidades brigam pelo poder desse movimento, a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Conlute (Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes), criada em 2004.

A UNE foi fundada em 1937, é a maior entidade representativa dos estudantes e tem uma bela história de lutas e conquistas. A partir de 1964 com o golpe e a implantação da ditadura militar, estudantes foram perseguidos, presos e torturados. Em ofensiva ao movimento estudantil, ainda em 1964 a ditadura implantou a Lei Suplicy de Lacerda, que extinguiu a UNE e criou novas entidades representativas, atreladas e dependentes do governo.

Clandestinamente a UNE continuou a existir, fez forte oposição à ditadura e participou em 1968 da passeata dos Cem Mil, que foi uma manifestação em protesto à morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima. O governo resolveu fechar o cerco contra os estudantes, mais de 720 líderes estudantis foram presos no Congresso de Ibiúna e Edson Luís foi assassinado por policiais no Rio de Janeiro durante um confronto com estudantes.

Em 1984 o movimento participou ativamente das “Diretas Já” e, posteriormente, no governo FHC, foi contra o modelo neoliberal implantado no país. Porém, a hegemonia da UNE acabou em 2004 com o surgimento da Conlute, que faz oposição e acusa a União Nacional dos Estudantes de ser controlada por partidos do governo e não ser democrática em seu interior.

Como a própria Conlute afirma, existe a briga partidária. Além da batalha pelo poder de coordenação do movimento estudantil travada pela UNE e Conlute, existe a luta pelo poder da UNE, que engloba uma disputa entre várias juventudes partidárias, com exceção do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), que é diretamente ligado à Conlute. É comum observarmos em eleições de DCEs (Diretório Central dos Estudantes), chapas que se intitulam independentes, ou seja, sem envolvimento com partidos políticos. Isso normalmente acontece graças ao regimento da entidade, que prega a independência partidária. Mas percebe-se o partidarismo dessas instituições por meio dos líderes, que não coincidentemente lideram o movimento estudantil e juventudes partidárias.

Tomando como exemplo as eleições do DCE da UEM (Universidade Estadual de Maringá), realizadas no último dia 8, pode-se identificar o partidarismo no movimento estudantil. Olhando a composição das chapas encontram-se vários líderes e militantes de partidos como o PT (Partido dos Trabalhadores), PCdoB (Partido Comunista do Brasil) e PSTU, partidos teoricamente rivais na luta pelo poder do movimento estudantil. Toda essa história de apartidarismo fica apenas no discurso da chapa.

Eleita nessa ultima eleição do DCE da UEM a “Chapa Quente, Bonde do Amor”, prega “uma UEM mais sensual”. Além de algumas propostas consideravelmente sérias, o Bonde debocha do movimento estudantil propondo absurdos. Idéias como: a devolução do Brasil para Portugal, para que times brasileiros joguem a Champions League; a construção do “Estádio do Estudante”, para que UEM possa sediar a Copa de 2014; a universalização da UEM, promovendo um intercambio com alunos de outros planetas e a invasão da reitoria até o fim do aquecimento global, são algumas das debochadas propostas da chapa.

Durante o período eleitoral a direção da chapa produziu um desrespeitoso vídeo. Ao fundo a música de campanha intitulada “Rap do Amor” e uma seqüência de montagens e fotos onde aparece o desenho de Marx com um balde na cabeça, e outros celebres comunistas com copos na mão, simulando uma festa. Um detalhe importante, é que no vídeo aparece várias vezes a bandeira do PCdoB, comprovando a ligação partidária da chapa. Na música, o Bonde do Amor se diz apartidário, mas a bandeira do PCdoB e os líderes comprovam a ligação política.

O perigo é que a UEM seja sensual o suficiente para atrapalhar o ensino. O movimento estudantil não surgiu para fazer festa, para pregar a venda de bebidas dentro da universidade, para pedir mesa de sinuca no DCE ou para promover rodízio de carnes no RU (Restaurante Universitário). Surgiu para lutar por um país e por uma educação melhores, buscando condições para que os jovens possam ter acesso à educação de qualidade e pública, reivindicando uma universidade democrática e um país onde as oportunidades sejam iguais.

O Rap do Amor – Chapa Quente (vídeo disponível no youtube)

Parapapapapapapapapa...
Tem gente que acha que o Bonde é só a “zuação”
Mas é a seriedade junto com a diversão
O DCE do amor vai ser do estudante
Não há politicagem sem vergonha e dominante
Porque eles estão comprometidos com partido
E bonde do Amor só quer ser seu amigo
Pra enfentar o bonde até o PT treme
E pra rimar com isso eu peço um sorvete de creme
Eles dizem que a gente “somo” tudo alienado
Eu digo e repito que eles tão errado

Nessa escola em que estudam a gente é professor
E pra falar a verdade laureado com louvor
É na escola da vida que nós temos a vivência
Por isso é besteira defender a violência
Eles têm ideologia da revolução
A nossa vai ser feita com amor no coração
Por causa do Bonde o Guapo tem chilique
Nato tem pro Silvio Barros e nem pro bolcheviques
Por que o comunismo é coisa do capeta
E o camarada Trotsky foi morto a picareta

Tenho maior conceito pra com os ateus
Mas não tem problema se tu acredita em Deus
Pode ser Jesus, Maomé ou deus Indú
Pior seria se fosse no PSTU

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