sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Quimeras, um piano e o velho comunista

Wil Scaliante
Um cômodo. Uma janela aberta. Brisa que mexe suavemente a cortina. Os últimos raios de sol entram pela fresta da cortina e iluminam um piano de calda. Um velho piano, frente a frente com um velho homem.

Um homem magro, alto, cabelos brancos, pele enrugada, orelhas grandes. O ar de felicidade que o envolve torna aquele momento o mais especial de toda sua ilusória vida. Uma vida marcada por muitas quimeras, charutos e livros comunistas.
Tudo parece estar imóvel. Apenas os dedos do velho homem movem-se de forma que ecoe uma belíssima música. Os que ali estão, escutam atentos nota a nota. A música parece trilha sonora para mais uma de suas histórias sobre a Revolução Cubana, Che Guevara ou a Comuna de Paris.

Os raios de sol começam a sumir. O cômodo aos poucos escurece. O frio que congela as mãos dos ouvintes parece não atingir o pianista. A música que começou suave ganha tom alto, aumentando o suspense.

Toda a cena parece ter um fim ideológico, mas repentinamente a música pára, os aplausos, como é de praxe, soam. Mais o final não corresponde ao esperado. O pianista vira-se para os alunos, sorri, notam-se lágrimas saindo de seus singelos olhos e escorrendo em seu rosto enrugado. Ele coloca a mão em seu peito e, pela última vez, olha para seus alunos, pisca um dos olhos e cai, morto. Agora suas mãos estão geladas, agora seu rosto ganha um tom de seriedade e o ar de felicidade que o envolvia aos poucos se vai, junto de sua alma.

Os alunos assistem perplexos, seus olhos estão nada mais que esbugalhados. Alguns parecem estar aterrorizados, até ensaiam um começo de choro. Outros sentem um ar de felicidade os envolver e deixam a calma entrar em seus corpos. Poucos parecem nada ter entendido. Até que um aluno, com um sorriso na boca e uma lágrima no rosto, levanta e diz:

- Ele tinha prometido compor sua marcha fúnebre! Não havia melhor momento para ser tocada.

Nenhum comentário: