quarta-feira, 8 de julho de 2009

O cultivador de rosas

Wil Scaliante

Ele ainda nem viu a luz do sol e a água já está fervendo no fogão. Café? Desta vez chimarrão. Vai até o cabideiro pega sua boina. Depois caminha até o canto o da sala, pega sua meia suja e seu sapato. Abre o guarda roupa, apanha sua velha camisa xadrez e aquela calça jeans. Com a cuia na mão anda pela casa recolhendo seus livros. Antes de sair rega sua roseira, que já aponta um belo botão vermelho. Para ele aquela rosa vermelha simboliza muito mais que uma planta, todo dia ele a rega com carinho e cuidado, como se regasse sua esperança. Olha a hora?!? Se o trânsito não colaborar vai chegar atrasado.


Logo que entra na sala de aula percebe que os alunos comentam sobre sua aparência. Barba sem fazer, cabelo bagunçado, olhos negros, óculos, pele clara e hoje um cheiro agradável, havia tomado banho antes de colocar a água pra esquentar. Senta na mesa, chama atenção dos alunos e diz: “Eu sou o professor e quem são vocês?” Uma pergunta aparentemente fácil. Logo, aquele garoto engraçadinho responde: “Eu sou a Branca de Neve”. Dia difícil? Que nada, ele sempre tem uma resposta na ponta da língua: “E eu o seu professor Branca de Neve. Prazer, como vão os 7 anões?”. Lógico, os alunos riem. Não esperavam tal resposta. Se estivesse retrucado ou expulsado o guri provavelmente criaria uma rejeição entre os jovens. Mas não era essa a técnica do professor, ele era contra a força, preferia o convencimento. Ele volta a fazer a pergunta: “Quem são vocês?” A maioria responde: “Sou aluno do senhor, meu nome é fulano de tal.” Depois da sétima resposta repetida ele interrompe: “Vocês são só isso? Pensem e me tragam uma redação para próxima aula dizendo quem vocês realmente são”. Para aqueles jovens do ensino médio ele era um professor no mínimo esquisito, não havia pegado no livro, muito menos escrito no quadro, apenas conversado, contados histórias. Uma coisa era certa, nunca se viu aquela sala tão quieta e atenta a uma aula.


Dias depois ele recebe as redações. Para a nova surpresa dos alunos, os informa que só lerá a redação no fim do bimestre. Uma forma de avaliar a evolução desses jovens. Aquilo pouco parecia uma aula, comparada com a dos outros professores. Falava de um mundo bonito, sem desigualdades. Falava de cidadania, da nossa função como ser. Explicava que não se deve ser médico para ganhar dinheiro, mas sim pra suprir necessidades básicas e ajudar a sociedade. Explanava que você não deve estudar pra ser um profissional, pra ficar rico. Dizia que você tem que estudar pra ser um cidadão consciente, que saiba o que melhor para sua sociedade.


Fácil ele conquista os alunos tocando seu intimo, seus sentimentos, ou seja, aquela jovem vontade de melhorar o mundo. E ele fazia muito bem, aqueles jovens precisavam de uma injeção de animo e consciência. O resultado? Antes do fim do primeiro bimestre os alunos daquela sala por conta própria fundaram um Grêmio Estudantil. Ele ficava orgulhoso, sentia que sua rosa estava florescendo em outros lugares.


Mas por incrível que pareça era criticado por muitos professores, uma chegou a citá-lo na reunião: “Ele manipula os alunos, tem que dar o conteúdo, a matéria e nada mais”. Argumento fraco, pelo menos pra ele: “E não tenho que dar só a matéria, e tenho que ensiná-los a pensar, pra que não sejam alienados, e não caiam na inocente besteira de dizer que só se deve fazer o que lhes é determinado. Eles têm de fazer mais, você precisa fazer mais.” Um pouco mais conformada a professora pergunta: “Mas e o vestibular?”. Antes de responder ele levanta, vai até a cafeteira e pega dois cafés, um pra ele e outro pra ela. “A escola tem que formar cidadão. O vestibular é um sistema falho, que nós, e a maioria dos professores estimulamos. Em vez de um jovem ver seu parceiro de classe como um colega, graças a esses mecanismos de seleção e privilégio, ele o vê como um concorrente. Onde isso vai parar? Talvez, futuramente, um professor se quer se lembrará da gentileza de servir sua colega com um cafezinho. Eu ainda prezo por um mundo mais humano, igualitário, repleto de oportunidades pra todos e não para alguns, e sei que quando a companheira estiver pronta, também abraçará essa causa.” Ele não tinha ganho só os alunos, tinha ganho parte dos professores.


No fim do primeiro bimestre, percebendo a real evolução dos alunos, ele lê as redações. Os alunos riem de si mesmos. Sabem que eram muito mais que os filhos do fulano de tal e de ciclana de tanto. Já sabiam que eram cidadãos, que eram seres humanos repletos de sentimentos, que tinham uma importância dentro daquela sociedade, só lhes faltava lapidar aquela consciência de ser. Provavelmente a próxima aula conteria Marx. As notas? 10 pra todo mundo, ele não se arriscaria a medir a capacidade de um aluno por provas. De agora em diante a avaliação seria feita pela capacidade de argumentação, ação e transformação. O aluno podia escolher se queria um debate, uma redação, a organização de um evento, palestra, seminário. O professor o avaliaria apenas pela necessidade imposta pelo sistema, que nem sempre pode ser rompida, principalmente quando se tem um fim maior. Mas ele deixaria que o aluno escolhesse de que forma tem melhor capacidade de expressar seu conhecimento. O resultado? Uma revolução. Que não foi armada, foi intelectual. Como dizia o sábio professor: “Se cada um fizesse sua parte, se cada um buscasse fazer mais do que o mínimo lhes exigido, se todos regassem suas rosas, concordaria mais ainda com Che, que costumava dizer que eles podem destruir uma, duas ou três rosas, mas que nunca conseguiram deter a primavera”.


A primavera chegou, mas o professor, aquela velha rosa, não teria chego a essa estação. Mas como ele se orgulhava em dizer: “A minha rosa um dia vai morrer, mais eu garanto que até a primavera já terei plantando um jardim de novas vermlhas rosas”.


Um comentário:

Claudio disse...

http://ramelas.blogspot.com/2009/07/lei-seca.html

problemas com a policia militar na zona 07

vlw