sexta-feira, 26 de março de 2010

Zezinho do Sobrenome Esforçado da Silva

Wil Scaliante

O garoto tem seus méritos. Todo dia acorda antes do sol raiar pra passar uma forte xícara de café. Seu nome é Zezinho do Sobrenome Esforçado da Silva, mora sozinho, não tem filhos, nem cachorro, a única coisa que tem é seu esforço. Zezinho sonhador, como por muitos é apelidado, trabalha de manhã e de tarde, ganha pouco e estuda de noite. Sonha com o futuro, fazendo o presente, sonha acordado, por que quando joga os cabelos no travesseiro o sonho é pesado.

O jovem todo dia dá duro, tão duro que chega a ficar mole, de pernas bambas e cabeça pesada, mas não reclama por que não gosta de perder tempo se queixando. É feliz por estar realizando seu sonho, que não é uma mansão, um carro importado ou uma casa na praia, seu sonho é o conhecimento. Zezinho agradece ao presidente mesmo sem o conhecer, por ter dado a ele a oportunidade de aprender. Zezinho é bolsista, do Prouni.

Filho de Ciquinha do Sobrenome Esforçado, não nasceu em berço de ouro, nem em hospital pago. Zezinho é orgulhoso de si mesmo, se orgulha de saber o que está falando.

Quando sabe gesticula, explica, fala, argumenta, critica. Quando não sabe, abaixa a cabeça e escuta, depois pesquisa pra saber se é verdade.

Tão jovem sai de casa as sete e volta à meia noite, pega dois ônibus pra ir pra aula e dois pra voltar. Ônibus mesmo daqueles lotado, que tão raro quanto ganhar na loteria é você conseguir ir sentado. Mas educação não lhe falta, quando uma senhora de idade entrar na condução, mas do que rápido, Zezinho levanta e estica a mão.

No ônibus ele enxerga um menino, que tem só dois anos, e no meio de todo essa correria, ele acha tempo pra ser simpático. Pergunta nome, idade e sorri. O menino retribuiu com uma gargalhada e logo em seguida faz charminho de criança e mostra a língua.

Zezinho gosta de crianças, lembra dos seus irmãos e de quando teve infância. Miudinho correndo na rua de casa, chutando bola e brincando com a garotada. Taí outro sonho de Zezinho ter filho, ele imagina como seria o seu menino. Mas ainda não achou mãe pra criança, pois pra ele não é fácil ter tempo pra tanta coisa.

Será que Zezinho tem amigos? Muitos, de faculdade, de trabalho, de rua e vizinhos. Ele gosta de uma cerveja, pra trocar idéias e filosofar ao pé de uma mesa. E olha que Zezinho matava aula de vez em quando, pra esquecer um pouco do dia a dia e tomar uma gelada com a meninada. Mas agora é proibido, parece crime, boteco perto da universidade, só a 150 metros. Uma opção de lazer a menos pra Zezinho, diante de tantas, tantas, tantas que ele tem. São tantas que ele não se lembra de nenhuma outra.

Mas Zezinho é inteligente e orgulhoso, de jeito nenhum aceita ser tratado como criminoso.

Enche a boca pra falar que é estudante, e de vez em quando levar porrete de policial. Essa história Zezinho insiste em contar, que certa vez depois de um vestibular, que fez na UEM e não passou. Tava sentando na casa de um amigo, ali na Zona 7 onde mora, e depois da prova, abriu uma cerveja e começou a tomar, dai veio o seu policial pra com ele reclamar. "Agora é lei, não pode mais beber aqui em época de vestibular". Zezinho não entendeu e foi logo indagar: "que crime cometi por minha cerveja tomar?" Zezinho sempre gostou de ser livre e não aceita repressão e pra todo mundo que encontra, conta a história e diz: "estudante não é ladrão".

Nenhum comentário: